Gianni Infantino, presidente da FIFA. Foto: Reprodução

Gianni Infantino, presidente da FIFA. Foto: Reprodução

A Copa do Mundo de 2026 ainda não começou, os ingressos mais caros da história da FIFA mal foram ainda impressos e eis que o atual presidente da FIFA já está com o próximo mandato praticamente embrulhado para presente.

Pra quem não sabe, tem eleição na FIFA em 2027.

E não, ninguém sabe que mês, que data, que hora essa eleição acontecerá.

Porque ? Porque é assim, e acabou.

Candidatos, ninguém sabe quem serão.

Mas calma.

A Copa do Mundo nçao chegou ainda, mas a eleição já assunto...

E eis que a CONMEBOL, a confederação que reúne os dez países do futebol sul-americano, já é a primeira a formalizar o seu apoio, unânime que se diga de passagem, do seu conselho deliberativo para que Gianni Infantino siga no cargo.

Por mais quatro anos, a partir de 2027.

Infantino nem ainda anunciou formalmente a candidatura, mas, convenhamos, quando a confederação com o maior numero de títulos Mundiais e que abriga a Argentina, atual campeã do mundo, bate palma antes do jogo começar... o resultado parece já estar mais do que ensaiado.

Infantino chegou à presidência da FIFA em fevereiro de 2016, num congresso extraordinário convocado às pressas para tapar o buraco deixado pela crise envolvendo o ex-presidente Sepp Blatter.

Blatter havia sido reeleito para um quinto mandato em maio de 2015, mas quatro dias depois anunciou a renúncia, pressionado por uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Essa investigação resultou na prisão de sete dirigentes da FIFA num hotel de Zurique, acusados de crimes que incluíam lavagem de dinheiro, fraude e recebimento de propinas que somavam mais de 150 milhões de dólares ao longo de mais de duas décadas.

Era o escândalo do FIFAGate.

Blatter ficou 17 anos na presidência.

Saiu pela porta dos fundos, banido pela própria FIFA por oito anos, pena depois reduzida a seis.

Foi nesse cenário de cinzas e desconfiança no futebol mundial, que Infantino se candidatou e venceu no segundo turno com 115 votos contra 88 do favorito Sheikh Salman do Bahrein.

Gianni Infantino herdou uma entidade em estado de choque institucional.

Desde aquela eleição disputada, porém, a "emoção" das eleições acabou.

Em 2019, em Paris, e em 2023, em Kigali, no Ruanda, ele foi reeleito por aclamação, pois nenhum outro candidato apareceu.

100% dos votos.

A eleição por aclamação, para quem não conhece o mecanismo, significa que quando chega o dia do congresso não há votação, não há urna, não há contagem.

Os delegados simplesmente aplaudem.

Em 2023, o sistema utilizado nem permitiu registrar quantos delegados preferiram NÃO levantar as mãos.

Alemanha, Noruega e Suécia declararam publicamente que não apoiariam Infantino, mas também não conseguiram, ou não puderam, lançar um candidato alternativo.

Crítica sem candidato, na política, costuma ter vida curta.

A explicação para essa dificuldade em encontrar quem enfrente Infantino está num detalhe que parece burocrático mas é, na prática, o coração do seu poder.

Cada uma das 211 federações filiadas à FIFA tem direito a exatamente um voto no Congresso.

Seja ela a Confederação Brasileira de Futebol, com Pelé e 5 títulos de Copas do Mundo ou a federação das Ilhas Turks e Caicos, que nunca chegou perto de jogar sequer um Mundial.

E cada uma dessas federações, seja a CBF, seja Turks e Caicos recebe, no ciclo atual de 2023 a 2026, até 8 milhões de dólares da FIFA.

No próximo ciclo, de 2027 a 2030, o valor total distribuído sobe para 2,7 bilhões de dólares para ser dividido entre todas.

Para dezenas de federações que mal têm estrutura administrativa, esse dinheiro é literalmente a razão de existir. A própria FIFA disse isso recentemente:"Sem a FIFA, o futebol em dezenas de países não conseguiria sequer existir".

Quem distribui tanto dinheiro não costuma perder eleição, onde o mais poderoso tem o mesmo peso de voto que os menores países do mundo.

A CONMEBOL, porém, não está sugerindo mais uma vez a eleição de Infantino só por gratidão financeira.

Tem negócio concreto na mesa.

A Copa do Mundo de 2030 vai ter jogos em solo sul-americano pela primeira vez desde o Brasil em 2014, com Argentina, Uruguai e Paraguai recebendo cada um uma partida inaugural, em homenagem ao centenário do torneio disputado no Uruguai em 1930.

O restante do torneio acontece na Espanha, Portugal e Marrocos.

Esse arranjo espalhado por três continentes não foi obra do acaso.

Ele foi a solução encontrada para que a Copa de 2034 pudesse ser entregue à Arábia Saudita praticamente sem competição.

Já que o princípio de rotação continental da FIFA impede sequência entre continentes que já sediaram recentemente, o que excluiu Europa, África, América do Norte e América do Sul da disputa, deixando apenas Oceania e Ásia na fila.

A Arábia Saudita foi a única a se candidatar. O maior patrocinador da FIFA é a Aramco, empresa gigante da mesma Arábia Saudita.

Infantino foi entusiasta da candidatura saudita desde o primeiro momento, e é dele a ideia de ampliar a Copa de 2030 para 64 seleções.

Essa proposta foi apresentada ao Conselho da FIFA em março de 2025 pelo presidente da federação uruguaia, reforçada depois quando chefes de estado do Paraguai e do Uruguai foram pessoalmente a Zurique defender o projeto.
Todos da mesma CONMEBOL que hoje é a primeira a sugerir e oficializar seu apoio ao atual presidente da FIFA.

Nada foi confirmado ainda, mas Infantino foi filmado na reunião dizendo que era hora de fazer história, de fazer algo que o mundo não vai esquecer.

Linguagem de quem não está apenas ouvindo a proposta.

Toda essa movimentação acontece à sombra de uma questão estatutária que merece ser explicada com cuidado, porque é onde a história fica mais reveladora.

O estatuto da FIFA, reformado justamente em 2016 para evitar que outra "era Blatter" se repetisse, estabelece que nenhum presidente pode exercer mais de três mandatos de quatro anos, ou seja, doze anos no total.

Pelo calendário convencional, o mandato atual de Infantino, que vai de 2023 a 2027, seria o terceiro e último.

Fim de linha.

Só que em 2022 o próprio Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da FIFA decidiu que os três primeiros anos de Infantino, de 2016 a 2019, não contam como mandato completo porque ele havia assumido no meio do período pelo qual Blatter tinha sido eleito antes de renunciar.

Pelos estatutos reformados, um mandato só conta quando tem quatro anos inteiros.

Como aquele primeiro durou três, foi declarado mandato incompleto, e o relógio foi zerado. Três anos de presidência que, de repente, não contam.

Com esse entendimento, Infantino poderá disputar ainda mais dois mandatos, ficando no cargo até 2031.
O que totalizaria 15 à frente da FIFA.

Ou seja: a reforma criada para impedir a concentração de poder de longo prazo foi reinterpretada, pela própria FIFA, de forma a permitir exatamente isso.

No caminho até aqui, houve turbulências.
A FIFA investigou Infantino em 2017 por ter aceitado voos em jatos particulares pagos pela Rússia e pelo Qatar durante os preparativos para as Copas de 2018 e 2022.

Dois países que já tinham sido escolhidos como sedes do torneio sob a gestão de Blatter e que tinham interesse óbvio em cultivar boas relações com o novo presidente.

Em 2016, outra investigação apurou supostos gastos pessoais cobrados à entidade.

Em ambos os casos, o comitê de ética da FIFA concluiu que nenhuma regra havia sido violada.

Em dezembro passado, a organização não governamental FairSquare protocolou nova queixa formal no mesmo comitê, alegando que Infantino violou repetidamente o dever de neutralidade política da FIFA, e questionando também o processo pelo qual Donald Trump recebeu o inaugural Prêmio FIFA da Paz.

A FIFA não deu nenhuma atualização sobre o andamento da queixa.

Fora das investigações, Infantino acumula um conflito crescente com o futebol europeu. 

O novo Mundial de Clubes com 32 times, realizado em junho e julho de 2025 nos Estados Unidos, gerou uma reação em cadeia que chegou aos tribunais.

A FIFPro, sindicato global de jogadores, e as Ligas Europeias, representando 39 ligas em 33 países, apresentaram queixa formal à Comissão Europeia acusando a FIFA de abuso de posição dominante e de impor um calendário sem consultar jogadores e ligas.

A Premier League enviou mais de 20 cartas à FIFA sem resposta.

Treinadores como Pep Guardiola e Carlo Ancelotti manifestaram publicamente sua preocupação com o desgaste físico dos atletas. 

O jogador Rodri, do Manchester City, disse que os jogadores estavam perto de entrar em greve.

Semanas depois dessa declaração, rompeu o ligamento cruzado anterior.

A FIFA respondeu acusando as ligas europeias de hipocrisia.

No congresso da FIFA, organizado em Assunção, na própria sede da CONMEBOL no ano passado, os dirigentes da UEFA abandonaram a sala em protesto quando Infantino chegou duas horas atrasado por ter priorizado uma visita com Donald Trump na Arábia Saudita e no Qatar.

Com a CONMEBOL já na fila do apoio e o dinheiro da FIFA bem distribuído pelos quatro cantos do mapa, o roteiro de 2027 se desenha com clareza antes mesmo da Copa de 2026 ser iniciada.

O futebol dentro de campo nessa Copa, vai ter surpresas, viradas e dramas até o último segundo. Ninguém sabe quem vai ganhar o título.

Fora do campo, pelo jeito, já existe um favorito destacado para ser o líder da FIFA.
E esse jogo ainda sequer começou.

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