No Pernambucano de 2026 a maior distância percorrida será no confronto entre Decisão e Vitoria. Foto: Divulgação

No Pernambucano de 2026 a maior distância percorrida será no confronto entre Decisão e Vitoria. Foto: Divulgação

É extremamente triste para mim escrever essa crônica. A minha geração talvez vai entender melhor, pois vimos o Tetra, o Penta e somos herdeiros de quem viu a seleção de 70. Crescemos numa época em que os estaduais eram tão importantes quanto um Brasileirão, possuindo maior visibilidade e repercussão do que a Libertadores e qualquer Campeonato Europeu. Em 2026 os estaduais estarão ainda mais curtos, e justamente o campeonato do meu estado será o menor do país.

O campeonato Pernambucano de 2026 será o menor estadual do Brasil em termos de distância percorrida, principalmente após mais uma transferência do “cigano” Decisão, que agora trocou a cidade de Sertânia, no sertão do estado, por Goiana na região da mata norte.

Levando em consideração a distância entre Recife e Bonito (cidade do Maguary e sede do clube mais distante da capital), o estadual “percorrerá” uma distância de aproximadamente 130 quilômetros, praticamente a mesma entre a cidade do Rio de Janeiro e a cidade de Volta Redonda.

Contudo dois detalhes chamam atenção; cada vez mais o Campeonato Carioca vem apresentando jogos fora do estado do Rio de Janeiro e o jogo entre Boavista e Volta Redonda, sendo realizado em Saquarema ou em Volta Redonda, a distância percorrida será de aproximadamente 230 quilômetros.

No Pernambucano de 2026 a maior distância percorrida será no confronto entre Decisão e Vitoria, aproximadamente 170 quilômetros entre Goiana e Caruaru (o tricolor das Tabocas mandará seus jogos no Lacerdão em Caruaru), cerca de 10 quilômetros a menos do que a distância entre Aracaju e Porto da Folha em Sergipe (menor estado do Brasil) no deslocamento que os clubes da capital terão que realizar para enfrentar o Guarany. Lembrando ainda que no Sergipano de 2026 teremos uma distância de aproximadamente 240 km entre Itabaianinha e Porto da Folha no confronto entre Olímpico e Guarany.

Durante muitos anos esse “troféu" pertenceu ao Campeonato Alagoano, especialmente após o rebaixamento do CEO e Jacyobá e a licença do Batalhense e Ipanema. Mas após o retorno do Penedense, o clubes de Maceió terão que se deslocarem 150 quilômetros até a ribeira, além dos 190 quilômetros que separam Penedo e Murici, quando teremos o confronto entre Penedense e o caçulinha Murici Sport

Óbvio que essa análise excluem os campeonatos do Acre, Roraima e Amapá, onde infelizmente quase todos os jogos são realizados nas capitais (respectivamente nos estádios Arena da Floresta, Canarinho e Zerão) mas refletem bem o quanto os clubes das capitais estão cada vez mais distantes dos futebol dentro do seu próprio estado.

O futebol em Pernambuco sempre teve a tradição das equipes de Caruaru (que infelizmente após 64 anos não terá representante na primeira divisão), viu a chegada de Garanhuns e Serra Talhada nos anos 80 e teve seu apogeu nos últimos 20 anos com a chegada de Petrolina, Salgueiro e até Araripina, hoje se torna um campeonato minúsculo. A tal “supremacia” do trio da capital no ranking de torcidas no estado cada vez mais é um aspecto duvidoso, já que os clubes não se fazem presentes nas cidades, menosprezam o próprio mercado interno e cansam uma geração de novos torcedores que querem o básico do seu clube; títulos.

Atualmente Sport, Náutico e Santa Cruz são meros coadjuvantes no cenário regional e nacional, surgindo espaço para podermos pensar em questões básicas sobre o nosso passado;

Quantos alvirrubros não foram formados a partir do “hexa é luxo” ?

Quantos tricolores, como eu, não vibraram com os supercampeonatos estaduais ?

O Sport era uma seleção nordestina, posso aqui recordar de Ailton de Sergipe, Dário da Paraíba, Jackson do Maranhão, Leonardo do Píaui... hoje o Leão faz uma campanha ridícula com atletas do sudeste que desconhecem a tradição do clube e estrangeiros que seriam reservas em qualquer racha na orla da Praia de Boa Viagem.

O cenário é extremamente preocupante, a perspectiva para o futuro é de que o torcedor pernambucano terá um laço com algum clube daqui apenas pela tradição, não dos clubes, mas pela “herança familiar”. Os jovens que acompanham futebol vão consumir campeonatos e clubes de outros estados e países, ao definirem competitividade como padrão... quando no fundo buscam simpatia por clubes que sejam vencedores.

Término de escrever essa crônica preocupado... mas saudosista. Vou lembrar de quando íamos ao campo de terra na minha montanhosa cidade; os olhos voltados para a partida e os ouvidos ligados em algum rádio na arquibancada para ouvir os duelos do trio da capital pela rádio Meridonal de Garanhuns ou Liberdade de Caruaru... o som escapando e alguém imediatamente perguntando “gol de quem".

Vou recordar das noites de Domingo ou Quarta, quando “entrava” na AM do Motorádio do meu saudoso Pai as transmissões da Sociedade ( Salvador Bahia) com a dupla BA-VI encarando a Catuense de António Pena, a frequência da Verdinha chiando com Ceará e Fortaleza rezado para vencer o Icasa no Romeirão, as pelejas de CRB e CSA contra a Capelense de Zé Claúdio na Rádio Gazeta e do som limpo de orquestra da Tabajara com os duelos do Belo contra os Maioriais.

Sou de uma geração diferente e venho alertar os meus contemporâneos e conterrâneos; aproveitem a resistência do Potiguar Time Macho, os coices do Imperatriz Cavalo de Aço, as braçadas do Parnhayba, o retorno do Atlético para mais um DINOVÃO contra o Sousa, a ressurreição do Guarany Cacique do Vale, os malabarismos para sobrevivência do CSE, a malandragem de um jogo da Juazeirense, a paixão de Itabaiana pelo seu Tremendão... o futebol no interior do Nordeste se tornou algo em extinção.

 

 

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