Em vários estados no Brasil é muito comum um clube ser considerado como a “Terceira Força”. Infelizmente a terceira força do futebol Potiguar, o Alecrim Futebol Clube fundado em 15 de agosto de 1915, teve sua última glória em 17 de Agosto de 1986 e desde então a torcida amarga um longo jejum.
Na década de oitenta o Alecrim tinha um dos melhores times do Rio Grande do Norte. Naquele período, já havia conquistado o estadual de 1985 e manteve a base para o ano seguinte, perdendo apenas o centroavante Freitas (ídolo máximo do ASA), que foi substituído por Baíca, revelação da categoria de base do Alecrim, e Carlos Alberto que foi substituído por Doca.
No meio campo contava com a cadência do experiente meia Didi Duarte, a habilidade de Edmo, o faro de gol do atacante Odilon, a raça de Dé Leon (que tinha Jesus no nome - Gilberto Jesus Cação Rodrigues - mas batia até na sombra da bandeirinha) e os gols do talismã Beto Platini. Contudo o maior destaque daquele Periquito eram “seus passarinhos"; Lúcio Sábia na zaga e o craque Cúrio na ponta direita. Tudo sob o comando do professor de Educação Física da Escola Técnica Federal Ferdinando Teixeira, que era torcedor do clube e havia iniciado a carreira de treinador no clube em 1974.
Assim como em 1985, o Alecrim venceu dois turnos e chegou com vantagem para decisão. Bastou um empate sem gols contra o ABC para verdão conquistar o bi-campeonato, mesmo com três meses de salários atrasados
Após o encerramento do jogo, Curió (que no ano anterior teve que suspender a sua lua de mel para poder jogar as finais do estadual) convenceu seus companheiros de equipe, dirigentes e parte da torcida organizada FERA (Fiéis Esmeraldinos Radicais) para irem caminhando até a estátua do Padre João Maria, na Cidade Alta e pagar a sua promessa por mais um título. Naquele bicampeonato, Curió foi também o artilheiro do Estadual; 12 gols em 1985 e 13 gols em 1986.
Com o título, o Alecrim conseguiu a vaga direta do Rio Grande do Norte para o Campeonato Brasileiro de 1986. Foi a terceira participação do Alecrim em competições nacionais. Antes havia participado da Taça Brasil em 1963 e 1964 quando em ambas competições foi eliminado na primeira eliminatória pelo Campinense sem conseguir nenhuma vitória.
Em 1986, ficou no Grupo D com Atlético (MG), Portuguesa (SP), Vitória (BA), Palmeiras (SP), Nacional (AM), CSA (AL), Botafogo (RJ), Comercial (MS) Santa Cruz (PE) e Fortaleza (CE). Com forte crise financeira, o Verdão caiu na primeira fase. Em 40 dias de competição, empatou 3 jogos, perdeu 6 jogos, marcou 7 gols e tomou 15.
A única vitória do Alecrim na primeira divisão aconteceu na quinta rodada contra o Santa Cruz, gol solitário de falta assinalado por Sousa aos 35 minutos do segundo tempo. Foi o recorde de público do clube jogando em Natal por competições nacionais; 8622 pagantes no Estádio Castelão (somente em 1989 passou a ser chamado Machadão)
Na última rodada, Didi Duarte entrou no lugar de Álvaro e jogou sua última partida como profissional. O Verdão Maravilha empatou sem gols contra o Comercial do Mato Grosso do Sul. Com uma ajuda financeira do Vasco e do Santa Cruz, que dependiam daquele resultado, o clube equilibrou um pouco das suas dívidas, mas infelizmente perdeu quase todo o elenco para o ano seguinte.
Vários jogadores foram para o ABC; Lúcio Sabiá, Doca, Saraiva, Edmo e Chiquinho das Araras. Edmo e Doca encerraram a carreira no Futebol em 1987 (Edmo tornou-se um grande jornalista). Wassil e Baíca foram para o América. Baíca teve uma longa carreira em Portugal e encerrou com 42 anos no Alecrim em 2008. De Léon foi “arrepiar” no ASA onde se tornou ídolo. Cúrio foi jogar no Rio Negro e parou de jogar cedo demais. Didi Duarte foi treinador em vários clubes no Nordeste e comentarista esportivo.
Odilon teve uma longa carreira no ABC. Em todas as edições do Campeonato Potiguar, Odilon e Alberi estavam rigorosamente empatados com 114 gols e lideravam a lista dos maiores artilheiros. Em 1997 o Alecrim venceu a concorrência do Ceará e contratou Odilon junto ao Fortaleza Mesmo veterano com 41 anos, Odilon assinalou mais cinco gols e se tornou o maior artilheiro da história do Campeonato Potiguar com 119 gols, curiosamente nunca foi o artilheiro isolado de alguma edição. Até hoje Odilon, carinhosamente chamado pelo saudoso Hélio Câmara como o “Pequeno Grande Lírio”, permanece como o maior artilheiro na história do Alecrim com 68 gols.
Ferdinando Teixeira seguiu uma carreira vitoriosa pelo Nordeste, ganhou títulos no América e ABC, praticamente ressuscitou o Fortaleza no início dos anos 90 quando o Tricolor do Pici estava no ostracismo e venceu a segunda divisão alagoana com o CSA em 2005.
O Alecrim nunca mais conseguiu chegar até uma final de Estadual, no máximo foi terceiro colocado em 1989 e 1990 e 2014. No estadual de 1990 somente Beto Platini era remanescente do time de 85/86. Desde Cúrio em 1986, o Alecrim não teve um artilheiro de Estadual.
O Verdão Maravilha participou da Série C em 1988 e 1995, porém não passou da primeira fase. A esperança por dias melhores surgiu em 2009. O Campeonato Potiguar daquele ano dava direito a uma vaga na primeira edição da Série D. Como ABC e América-RN já estão na Série B, Assu, Santa Cruz, Potyguar de Currais Novos, Baraúnas e Potiguar de Mossoró foram convidados, mas nenhum topou o desafio. Melhor para o Alecrim, o oitavo lugar no Estadual, que aceitou disputar a competição e conseguiu o acesso, após venceu o Uberaba por uma zero em Natal e empatar por uma a um em Minas Gerais.
Na Série C de 2010 o time voltou a ser treinado por Ferdinando Teixeira, mas passava por mais uma crise financeira. Ferdinando trabalhou de graça e ainda ajudou financeiramente para que o seu clube de coração pudesse jogar a competição. O Alecrim
teve a chance de escapar do rebaixamento na última rodada, porém perdeu em casa para o Salgueiro por dois a zero, retornando assim para a Série D
Na Série D 2011 o clube não passou da primeira fase, mas reencontrou novamente o Santa Cruz na abertura da competição que marcou outro dado curioso em sua existência. Numa estratégia financeira, a direção do Alecrim transferiu o jogo para João Pessoa esperando um bom público do time Pernambucano. Uma multidão encarou chuva com muitos alagamentos na BR 101 e invadiu a capital paraíbana para ver o Santa Cruz que estava sem jogar há cerca de três meses. Vitória do Santa Cruz por três a um e estabelecimento do recorde de público do Alecrim jogando fora de Natal por competições nacionais; 16.022 pagantes.
Com a terceira colocação no Estadual de 2014 ganhou uma vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. Caiu na primeira fase diante do Tupi e nunca mais disputou nenhuma competição nacional.
Infelizmente veio o seu primeiro rebaixamento no Campeonato Potiguar de 2017. Em 2018 teve 19 terrenos da sua antiga sede campestre leiloados por conta de dívidas trabalhistas com ex-jogadores do clube.
Desde então oscila entre a primeira e a segunda divisão, onde se encontra atualmente. Continua como o terceiro maior vencedor no Rio Grande do Norte e gerando muita saudade para quem viu ou ouviu aquele grande Alecrim Dourado.