Em 1966 o Brasil foi eliminado da Copa da Inglaterra ao perder para Portugal, numa partida em que Pelé sofreu faltas duríssimas e passou boa parte do tempo mancando, já que eram proibidas as substituições. No final, ainda cumprimentou os portugueses que o perseguiram durante o jogo. Faltou ver esse tipo de atitude para que a Copa de 2026 se encerrasse de maneira digna.
As agressões iniciadas pelo argentino Paredes logo após o final da partida e o comportamento de toda a equipe vice-campeã – com exceção de Flaco López –, que virou as costas para a premiação dos espanhóis, ficarão para a história como os gestos mais graves de antidesportividade já vistos em uma final de Copa do Mundo.
E olhe que já aconteceu de tudo em decisões do Mundial. Teve gol do título em que a bola não entrou (o de desempate da Inglaterra na prorrogação com a Alemanha, em 1966), teve time que jogava pelo empate com torcida a favor de 200 mil pessoas e tomou a virada (Seleção Brasileira em 1950)... Mas nunca o perdedor partiu para a briga e desrespeitou o campeão.
Parte da imprensa argentina diz que os jogadores foram a campo sabendo que a Fifa queria dar o título à Espanha, daí sua revolta. Nada mais falso. Na verdade, o árbitro esloveno Slavko Vin?i? em nenhum momento favoreceu os espanhóis, ao contrário, pois chegou a anular um gol legítimo da Espanha na prorrogação, quando o jogo estava 0 a 0.
Escrevo isso “com o peito aberto e o coração cheio de amor para dar”, como diria o narrador Oswaldo Maciel, companheiro dos bons tempos da Rádio Globo/Excelsior. Tenho gente querida na Argentina e até o jogo decisivo eu era mais um admirador do futebol e da garra que faziam sua seleção seguir em frente em busca de mais um título. Porém, o que é certo é certo, e o esporte sem espírito esportivo se torna um grande equívoco.
Não, não guardemos essas imagens na memória. Lembremos de Vozinha, 40 anos, o surpreendente goleiro de Cabo Verde, ou de Haaland, o bom gigante norueguês que nos tirou da Copa. Ambos, aliás, foram escolhidos pela Fifa para a Seleção do Mundial, que ficou com Vozinha (Cabo Verde), Pedro Porro (Espanha), Lisandro Martínez (Argentina), Upamecano (França) e Cucurella (Espanha); Rodri (Espanha), Jude Bellingham (Inglaterra) e Michael Olise (França); Lionel Messi (Argentina), Kylian Mbappé (França) e Erling Haaland (Noruega).
O francês Mbappé terminou como o artilheiro da competição, com 10 gols (e mais três assistências) e o volante Rodri foi eleito o melhor jogador. Se houvesse a escolha do jogador com pior atitude, sem dúvida o troféu iria para o irascível Leandro Paredes, responsável por (tentar) estragar a festa da melhor Copa já disputada.
Bem, que a próxima seja ainda mais emocionante e inclusiva. Em 2030, quando a competição comemorará um século e será sediada em Portugal, Espanha e Marrocos (e ainda terá jogos na Argentina, Paraguai e Uruguai), manter 48 seleções já será excelente, mas pode ser que o espetáculo cresça ainda mais. Correntes na Fifa querem que o Mundial tenha 64 equipes, ou quatro vezes mais do que em suas primeiras edições!
Será excitante tentar descobrir a cada rodada novos Vozinhas e Cabos Verdes vindos do nada para fazer frente às melhores seleções do planeta. O mundo respirará futebol de uma maneira total. Que o Brasil se prepare para honrar sua tradição. E que os perdedores não percam sua nobreza.