A FIFA tem um slogan para esta Copa do Mundo.
Na verdade, tem vários.
"Football Unites the World" (O Futebol Une o Mundo).
Tem o "Unite for Peace" ( Una-se pela Paz).
Aí tem o "Unite for Education" e o "No Racism. No Discrimination".
( Una-se pela Educação e o Não ao Racismo Não à Discriminação)
Tem até o "Be Active" ( Seja Ativo ".
Todos os 48 capitães entraram em campo com um patch, um emblema, costurado na manga esquerda da camisa dizendo exatamente isso: Unite for Peace. Una-se pela paz.
Bonito.
Bem bonito.
O problema é que enquanto os jogadores entravam em campo com esse patch na manga das camisas, o mundo real que roda ao redor desta Copa do Mundo estava fazendo exatamente o contrário.
E a FIFA assiste a tudo sem dizer uma palavra.
Vamos aos fatos. Só fatos.
A Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022.
Em 48 horas, FIFA e UEFA suspenderam seleção e clubes russos de todas as competições.
A Rússia, que havia sediado a Copa do Mundo em 2018, foi eliminada de toda a eliminatória, de todo sorteio, de toda competição oficial.
Nem sequer teve a chance de tentar se classificar para este Mundial.
Banida. Ponto final.
Agora vem a parte interessante.
Nos últimos anos, enquanto a guerra em Gaza acontecia, segundo a Associação Palestina de Futebol, pelo menos 565 jogadores de futebol, destruindo 80 por cento das instalações esportivas da Faixa de Gaza, as federações de vários países apresentaram pedidos formais à FIFA para que Israel fosse suspenso, assim como a Rússia havia sido.
A FIFA respondeu em março de 2026 com uma multa de 150 mil francos suíços.
Cento e cinquenta mil francos.
E nenhuma suspensão.
Dois pesos. Duas medidas. Registrado.
Para entender por que a FIFA age desta forma nesta Copa, vale lembrar um detalhe que não é pequeno.
Gianni Infantino, presidente da FIFA, esteve presente no comício de Donald Trump antes da posse presidencial.
Esteve na cerimônia de posse.
Levou o troféu do Mundial de Clubes da FIFA ao Salão Oval da Casa Branca, numa visita protocolar que virou foto oficial.
A relação entre os dois é pública e conhecida. E bem estreita.
E é exatamente nesta Copa, organizada no país de Trump, que a FIFA tem mostrado um silêncio seletivo que muitos especialistas em direito esportivo já classificam como politicamente motivado.
Mas a Copa começou e as coisas ficaram ainda mais complicadas. E ainda mais reveladoras.
A FIFA proibiu a bandeira iraniana pré-revolução, o símbolo do Leão e do Sol, usada pelos iranianos que se opõem ao regime atual.
Um juiz em Los Angeles confirmou o banimento após uma batalha judicial movida por iranianos americanos que queriam entrar no estádio com a bandeira com que cresceram.
A bandeira foi confiscada na entrada.
Tudo bem. A FIFA tem suas regras.
No dia 15 de junho, durante o jogo Irã contra Nova Zelândia no SoFi Stadium de Los Angeles, um torcedor chamado Rony entrou no estádio com uma bandeira israelense sobre os ombros.
Dois seguranças da empresa Apex Private Security se aproximaram e pediram que ele entregasse a bandeira, invocando razões de segurança.
Rony apontou para as bandeiras palestinas a dois metros de distância de onde ele estava e perguntou por que aquelas podiam ficar.
Os seguranças disseram que as ordens vinham da FIFA. A bandeira foi confiscada.
As palestinas ficaram.
Uma mulher com o terno da FIFA foi vista claramente mandando os seguranças tirarem a bandeira israelense.
Rony entregou a bandeira a seguranças que, segundo o seu relato, pediram desculpas e admitiram que o que tinham feito estava errado.
Mas a bandeira não foi devolvida.
A FIFA não respondeu a nenhum pedido de comentário.
Rony contratou o National Jewish Advocacy Center e prepara uma ação judicial contra a FIFA por violação dos direitos civis americanos, incluindo o Civil Rights Act de 1964, que proíbe discriminação por raça, religião ou origem nacional em locais de uso público.
Ele foi discriminado. Diante de câmeras e pessoas que testemunharam tanto a bandeira de Israel como a da Palestina.
As quatro justificativas que a FIFA deu para a confiscação foram, em ordem:
-A bandeira representava risco de segurança, a ordem vinha do topo da FIFA, só eram permitidas bandeiras das seleções em campo, e bandeiras de países fora do torneio eram proibidas.
O problema é que cada uma dessas justificativas era diretamente contradita pelas bandeiras palestinas que permaneciam visíveis nas arquibancadas.
A Palestina não estava no torneio.
E as bandeiras palestinas ficaram.
Resumo dos advogados de Rony: uma bandeira, quatro justificativas, nenhuma delas válida.
Três dias antes desse episódio, em 12 de junho em Toronto, ativistas cobriram o logo oficial da Copa do Mundo na principal autoestrada da cidade com uma faixa vermelha gigante que dizia "Kick Israel out of FIFA" ( Expulse Israel da FIFA).
Os manifestantes usavam camisetas com os dizeres: "Jews for a Free Palestine".
Israel nem sequer está no torneio.
Não se classificou.
Nenhuma seleção israelense, nenhum árbitro israelense, nenhum assistente, nenhum operador de VAR, nenhum oficial israelense está nesta Copa.
Em Copas anteriores havia.
Desta vez não.
A razão, nunca declarada oficialmente, é política.
Todo mundo sabe. Ninguém diz nada.
No mesmo dia, em Toronto, o presidente da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, que tinha acreditação oficial da FIFA para o torneio, tentou entrar nos Estados Unidos e teve o visto negado.
Rajoub ficou preso na Cidade do México, de onde assistiu ao jogo de abertura entre México e África do Sul.
Quando a Rússia sediou a Copa em 2018, Rajoub entrou sem nenhum obstáculo.
Infantino, que no ano anterior havia prometido publicamente que todos seriam bem-vindos, disse aos jornalistas que a FIFA não podia anular decisões de governos.
Registrado.
Em Boston, no dia 19 de junho, fãs escoceses de kilt em longas filas esperando ônibus para o estádio onde a Escócia enfrentaria o Marrocos receberam bandeiras palestinas das mãos de ativistas postados ao longo do trajeto.
As bandeiras foram distribuídas abertamente.
Ninguém interveio. Nenhum segurança, policial, agente da FIFA apareceu.
No dia 11 de junho, na Cidade do México, durante a cerimônia de abertura da Copa mais cara e mais grandiosa da história, ativistas organizaram uma manifestação em que dezenas de pessoas formaram uma bandeira palestina humana gigante em frente às câmeras do mundo inteiro.
O objetivo declarado era manter o conflito no centro das atenções durante o maior evento esportivo do planeta.
A FIFA não fez qualquer comentário.
Em Vancouver, em abril de 2026, durante o Congresso da FIFA, Infantino pediu ao presidente da Associação Palestina, Rajoub, e ao vice-presidente da Associação Israelense, Basim Sheikh Suliman ( um árabe-israelense!!!), que se dessem as mãos como gesto de paz perante o mundo.
Rajoub recusou várias vezes, em público, no palco, com câmeras apontadas.
Disse que um aperto de mãos serviria apenas para encobrir as ações de Israel.
Infantino pediu que o palestino reconsiderasse sua posição. Para que "desse esperança às crianças palestinas, israelenses e do mundo inteiro".
Rajoub disse não.
A cena foi fotografada e publicada em todo o mundo.
A FIFA não tomou nenhuma medida.
Mas, agora o episódio mais grave de todos, acontecido no dia 3 de julho em Arlington, Texas, chamou muito a atenção.
O Egito venceu a Austrália nas penalidades por 4 a 2 nas oitavas de final.
Quando o apito final soou, o técnico do Egito, Hossam Hassan, um dos maiores ídolos do futebol egípcio, entrou em campo segurando uma bandeira palestina e passeou pelo gramado enquanto a torcida cantava "Free Free Palestine" e "From the River to the Sea" ("Do Rio ao Mar"), slogan associado à eliminação do Estado de Israel.
O vídeo viralizou em minutos.
Hassan disse em entrevista que dedicava a vitória ao nobre povo palestino. Disse que seu "coração e sua alma estavam com eles".
O mesmo povo palestino que o Egito não deixou entrar durante a guerra em Gaza, reforçou militarmente a fronteira entre o Egito e Gaza.
E apesar dos bombardeios e vítimas, até hoje limita a entrada de alimentos e insumos para os " nobres palestinos", que o técnico egípcio decidiu mencionar num campo de futebol, em pleno Mundial.
Naquele momento, dentro do AT&T Stadium em Arlington, Texas, estavam presentes seguranças americanos, representantes do Comitê Organizador Local, funcionários da FIFA e autoridades do futebol internacional.
Mas ninguém interveio. Apesar das regras claras da FIFA de que política não pode ser mencionada em campo.
E apesar dos slogans da própria FIFA.
Ninguém pediu que a bandeira fosse recolhida.
Ninguém emitiu qualquer advertência ao técnico.
A FIFA foi consultada pelos jornalistas e respondeu que bandeiras das 211 associações membro são permitidas nos estádios.
Mas porque a bandeira do torcedor Rony foi tirada então do estádio em Los Angeles...?
Nenhuma ação disciplinar foi anunciada contra o técnico Hassan. O silêncio foi total e imediato, de todos os lados.
E ele, graças ao uso da política em um Mundial, quebrando todas as regras, virou um ídolo entre egípcios e palestinos.
E é aqui que a contradição da FIFA fica mais difícil de ignorar.
Durante a Copa do Qatar em 2022, a FIFA proibiu capitães de seleções europeias de usarem braçadeiras com o símbolo "OneLove", uma campanha anti-discriminação e contra a homofobia.
Proibiu total e completamente.
Era contra a cultura e as regras do hóspede, Qatar, que proíbe o homossexualismo.
Ameaçou com cartão amarelo automático qualquer jogador que a usasse.
Os capitães cederam e tiraram as braçadeiras antes de entrar em campo.
Nessa mesma Copa do Qatar, fãs foram impedidos de entrar nos estádios com camisetas com símbolos LGBT.
O jornalista americano Grant Wahl foi brevemente detido por agentes de segurança qataris simplesmente por usar uma simples camiseta com um símbolo arco-íris numa porta de entrada de estádio.
A FIFA não protestou.
Em 2026, um técnico passeou com uma bandeira palestina, envolvida em uma complexa situação política no gramado, após um jogo oficial das oitavas de final, com gritos políticos ecoando pelas arquibancadas.
E a FIFA ficou em silêncio absoluto.
Dois pesos. Duas medidas.
De novo.
E há mais um exemplo desta Copa que revela muito sobre como a FIFA aplica suas próprias regras, ao que parece, quando lhe convém.
O regulamento da FIFA proíbe celebrações excessivas e expressões não esportivas durante os jogos.
Quem marca um gol e tira a camisa, recebe cartão amarelo, por exemplo.
Mas nesta Copa, os jogadores muçulmanos fizeram a "sujood", a prostração islâmica de gratidão a Deus, após praticamente cada gol marcado.
De joelhos, e até em orações coletivas antes de cada partida, com total naturalidade diante de bilhões de espectadores.
"Demonstrações de cunho religiosas são proibidas em jogos da FIFA", diz a regra.
Yamal da Espanha, Mohamed Salah do Egito, jogadores do Irã, da Jordânia, do Qatar.
A equipe inteira do Egito fez a "sujood" coletiva no gramado ao final da partida contra a Nova Zelândia.
Mais de 15 jogadores e membros da comissão técnica, ali, de joelhos, rezando no campo que a mesma FIFA proíbe...
Ninguém foi advertido.
Ninguém levou cartão.
A FIFA não disse absolutamente nada.
O que a FIFA fez, isso sim, foi agir nos bastidores. Silenciosamente, sem anunciar, a entidade removeu a marca da cerveja patrocinadora Michelob Ultra do troféu e do painel do prêmio "Man of the Match" (Melhor jogador da partida) quando o vencedor era um jogador muçulmano, substituindo por uma versão neutra sem marca de álcool.
O marroquino Ismael Saibari, eleito melhor jogador após marcar o gol mais rápido do torneio contra a Escócia, recebeu o prêmio sem nenhuma marca de cerveja visível.
Kane, Messi, Mbappé e todos os outros receberam o mesmo prêmio com a marca da cerveja bem visível.
Saibari, não: sem a marca da cerveja no troféu....
A mudança foi discreta.
A FIFA não a anunciou.
Só foi notada porque alguém comparou as fotos das premiações.
Enquanto isso, a cidade de Seattle declarou o jogo entre Egito e Irã de 26 de junho como "Pride Match" ( "Jogo do Orgulho"), parte das celebrações anuais do "Orgulho LGBT" da cidade.
As federações dos dois países, cujas leis e valores religiosos se opõem diretamente aos direitos LGBT, protestaram formalmente à FIFA pedindo que símbolos e atividades LGBT fossem proibidos dentro e ao redor do estádio.
A FIFA respondeu que o Mundial de 2026 é um evento inclusivo e que bandeiras e símbolos de orientação sexual são permitidos pelo regulamento.
O jogo aconteceu com bandeiras arco-íris nas arquibancadas.
Os dois países jogaram.
A FIFA foi bem, e não cedeu a esse pedido específico.
Mas cedeu, sim, em silêncio diante de tantos outros casos, ao longo deste torneio.
Agora uma curiosidade histórica que poucos sabem.
A Associação Israelense de Futebol foi fundada em 1928 durante o Mandato Britânico com o nome de Palestinian Football Association.
Repito: Palestinian Football Association, ou seja Associação de Futebol Palestina.
Criada,mantida e desenvolvida por judeus exclusivamente.
Em 1948, com o decreto da criação do estado judeu pela ONU, mudou então o nome para Israel Football Association.
A associação palestina de futebol atual foi criada em 1962 e reconhecida pela FIFA somente em 1998.
Ou seja, a briga não é só no campo.
É uma briga de décadas que entrou no futebol e que o futebol simplesmente não tem como resolver.
Apesar das intensas e autênticas tentativas da FIFA.
Enquanto tudo isso acontecia nos estádios, outras histórias revelavam o quanto esta Copa do Mundo é politicamente seletiva nas suas decisões.
O Iraque levou seu atacante Ayman Hussein ao torneio.
Na chegada ao aeroporto de Chicago, Hussein foi detido e interrogado por sete horas pelas autoridades americanas antes de ser liberado.
O fotógrafo oficial da seleção iraquiana foi detido por dez horas e depois informado que não poderia entrar no país.
O árbitro da Somália, Omar Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025 e nomeado para apitar nesta Copa pela FIFA, teve negada a sua entrada nos Estados Unidos.
Artan ficou incrivelmente fora da Copa. Poderia apitar no Canadá ou no México. Mas ninguém fez nada, e ele voltou a seu país.
O Irã, em guerra com os Estados Unidos desde fevereiro de 2026, jogou todos os seus jogos em solo americano mas teve de entrar e sair do país no mesmo dia após cada partida, sem poder pernoitar nos EUA.
Quinze membros da comissão técnica e administrativa tiveram vistos negados.
O Irã jogou esta Copa fazendo uma cansativa viagem de ida e volta entre o México e os Estados Unidos para cada jogo.
Senegal, Haiti, Costa do Marfim e Uzbequistão viram seus torcedores comuns praticamente impossibilitados de assistir à Copa ao vivo.
Um programa americano exigia que fãs de cinco nações africanas pagassem depósitos de até 15 mil dólares para obter visto.
O número foi temporariamente suspenso em maio de 2026 após pressão internacional, mas já era tarde para a maioria conseguir organizar sua viagem.
No meio de tudo isso, a FIFA exibe em todos os 16 estádios, em telões gigantes, as campanhas "Football Unites the World" ( O Futebol Une o Mundo), No Racism e Unite for Peace.
Em Atlanta, Los Angeles, Guadalajara e Vancouver, as telas piscam durante os jogos com a mensagem "We Play Together" ( "Jogamos Juntos").
Nem todos....
Do outro lado das câmeras, um torcedor judeu americano chamado Rony não conseguiu assistir ao jogo com a bandeira do seu país.
Um técnico de futebol passeou em campo com uma bandeira política enquanto a torcida gritava slogans de eliminação de um estado.
Um árbitro africano premiado ficou do lado de fora do torneio para o qual havia sido convocado.
O presidente de uma associação de futebol ficou preso no México porque não conseguiu visto para o país que organiza a Copa.
O presidente da FIFA propôs, durante este torneio, um jogo amistoso entre as seleções sub-15 de Israel e Palestina nos Estados Unidos em setembro como gesto de paz e reconciliação.
A ideia foi amplamente recebida com silêncio constrangido.
Esta Copa do Mundo tem 104 jogos, 48 seleções, três países anfitriões, um slogan sobre paz e um regulamento sobre discriminação que se aplica conforme o vento sopra.
É o maior espetáculo do futebol da história, sem dúvida.
E é também, sem qualquer dúvida, o mais politicamente contraditório.
Ninguém inventou nada aqui. Só se constatei o que aconteceu.
Que o futebol consiga, em breve, unir todos, de verdade, sem política em campo.